Impressora 3D pessoal: o fenômeno da principal ferramenta maker
Por Marília Fuller
Sexta-feira, 11h. Em meio à correria para me arrumar e sair de casa a tempo de chegar ao trabalho no horário certo, pego o carregador do celular e percebo algo esquisito. “Essa porcaria vai arrebentar!”.
- Pai, acho que o cabo do meu celular ‘tá querendo quebrar.
- Já? Ok, eu dou um jeito.
Saio. Volto para casa por volta das 20h. Chego e encontro a sala de estar - que, há mais de ano, virou estúdio/oficina - com o característico cheiro de plástico derretido e resfriado. Do armário na parede da esquerda, o barulho de uma máquina funcionando e imprimindo.
- Eu ‘tô fazendo um protetor para o seu cabo. ‘Tá na impressora, fica pronto em uns 10 minutos.
Francisco Fuller - engenheiro, 50 e tantos anos - sempre foi fascinado por aquilo que, em casa, chamamos de “brinquedinhos”. Aeromodelismo, carros de controle-remoto, figuras de personagens e miniaturas naves,construções de filmes e seriados geeks, telescópios, câmeras fotográficas vintage. Tudo montado (e, às vezes, consertado) por ele mesmo. Também entende de marcenaria: minha avó conta que desde muito novo já gostava de observar meu bisavô mexendo com madeira, cola, ferramentas e pregos. Foi ele quem fez, sozinho, ao menos metade dos móveis de todos os apartamentos onde já moramos.





A primeira impressora 3D dele chegou em casa ano passado, em 2016, mais ou menos na mesma época em que foi demitido. Era um kit baseado na RepRap3D Graber i3 e custou cerca de R$1700,00 na época. Mais barato do que uma impressora fechada e já montada, os kits fornecem todas as partes para criar uma impressora 3D - a montagem fica por conta do comprador. O projeto, incluindo a descrição completa das partes, da montagem e das calibrações para a máquina funcionar, ele encontrou gratuitamente na internet. Era a oportunidade perfeita de fazer muito daquilo que gosta - construir e criar coisas novas - e, quem sabe!, conseguir fazer dinheiro com isso.
Dos anos 80 para cá
Foi em 1984 que Chuck Hull, norte-americano da Califórnia, inventou e construiu a primeira impressora 3D utilizando como base a estereolitografia, processo de solidificar resina através de luz. A tecnologia barateou e tornou mais rápida a confecção de objetos e partes de plástico, tudo em um ambiente controlado e de maneira flexível. Contudo, foi apenas nos últimos dez que a impressão 3D se tornou mais acessível, quando Joseph Prusa criou a primeira impressora viável de projeto aberto.
Hoje, o mercado mundial de impressão 3D - tanto em relação a compra de equipamentos quanto prestação de serviços - está estimado em dezenas de bilhões de dólares para os próximos anos e esse número. Existe uma gama de impressoras, desde os kits mais simples às grandes e profissionais. A StrataSys e a 3D Systems, atuais líderes de mercado e detentoras da maioria das patentes, vendem máquinas profissionais por mais de US$15 mil; porém, empresas novas e menores se aventuram na produção de novas impressoras, baixando os preços e trazendo a tecnologia para uma porcentagem maior da população.
São mais de 20 os atuais fabricantes nacionais das chamadas impressoras de entrada (ou semi profissionais), tais como o 3D Criar do FabLab da USP, o GTMax3D, o 3DCloner, a Sethi, o Up3D. Os filamentos e matéria-prima da impressão também foram barateados com o surgimentos de fabricantes e fornecedores nacionais.
Imprimindo em casa
Para imprimir em 3D, precisa-se basicamente de três coisa: uma impressora, a matéria-prima (filamento de plástico, normalmente) e um modelo em três dimensões daquilo que se quer imprimir. Existem diversos sites gratuitos nos quais se acha arquivos de objetos em 3D, ou em que se pode desenvolver seu próprio modelo, como Autocad, Tinkercad, Maya, Rhinoceros, 3DSlash, 123D Design, Sketchup. Os filamentos vem em grandes rolos com as mais diversas cores. O resultado final, que pode levar de apenas alguns minutos a muitas horas, dependendo da complexidade daquilo que se imprime, vem de diversas camadas sobrepostas de material.


Rafael Arevalo, publicitário, matemático e - principalmente - maker de 20 e poucos anos, está construindo a sua própria impressora 3D. Todas as peças que puderam ser impressas em 3D, foram. Sem limitações espaciais de comprimento, ela fica presa à parede e pode imprimir objetos de até 8 metros de altura. O projeto é de um aluno de mestrado na Suécia, mas ele está incompleto - Arevalo precisou descobrir como fazer muita coisa apenas olhando fotografias da impressora original. “A minha está 90% pronta. Assim que finalizá-la, vou disponibilizar de graça na internet e mandar para o cara todos os erros que achei no projeto dele.”
Arevalo faz parte do projeto TATO, que utiliza o advento da impressão em 3D para reproduzir obras de grandes pintores mundiais em modelos tridimensionais. A ideia é que pessoas não videntes também possam ler e visualizar as pinturas, mas utilizando seu tato. Em seu estúdio improvisado no andar de cima de um bistrô na zona sul paulistana, o encontrei trabalhando na nova impressora - a HangPrinter - enquanto tentava consertar uma outra, em meio a filamentos, ferramentas e placas de arduino.


Fuller, além de imprimir coisas para seu uso próprio e da família, também tem seus próprios projetos. No começo do ano, fundou a Fullertronics, startup que trabalha com ideias inovadoras ligadas a impressoras 3D e internet das coisas. Além de consultoria e cursos de impressão 3D, a startup está desenvolvendo, atualmente, protótipos de impressoras 3D - nomeadas de Hypercube - e um robô autônomo de inspeção de tubulações.
Impressora 3D e Cultura Maker
Tanto para Arevalo quanto para Fuller, a Cultura Maker foi umas das grandes responsáveis por popularizar e tornar acessível a impressão 3D. A criação de novos projetos open source de impressora permitiu que o público médio entrasse em contato com a tecnologia e a levasse para casa, barateando tanto o processo de construção quanto de impressão. Contudo, ela ainda é um pouco restrita devido a necessidade de conhecimento e conteúdo técnico, tanto para montar quanto regular e manter a máquina.
A Cultura Maker, com sua ideologia de registrar e compartilhar, permite que não só a impressora se dissemine e chegue a mais pessoas, mas também a tecnologia necessária para operá-la. Cursos, vídeos, fóruns, maker e hacker spaces, FabLabs, projetos em escolas - as possibilidades são vastas, apesar de ainda não serem de amplo acesso à população, especialmente a brasileira. Arevalo comentou sobre os planos seus com um amigo (Maurício, também conhecido como MauMaker) de investirem em escolas maker - as quais, além de tudo, ainda promoveriam a busca por soluções de problemas reais em espaços reais na cidade. Uma espécie de fazer você mesmo pensando no coletivo.
Fuller se considera maker desde sempre. Se na infância os seus "brinquedinhos" eram as ferramentas de marcenaria na casa do meu bisavó, hoje eles vêm em carcaças de acrílico ou madeira, com uma maquininha de metal que derrete plástico e constrói do zero qualquer objeto o qual você possa imaginar - desde que ele caiba na tal carcaça, claro! Nossa sala de estar/escritório/oficina maker conta, no momento, com cinco impressoras 3D e mais de uma dezena de rolos de filamento colorido. Com o material, ele constrói os protetores para o cabo do meu celular, spinners para meu irmão e os amigos dele, vasos para minha avó colocar flores, ou até mesmo os protótipos das suas próprias impressoras 3D. A ferramenta já faz parte do dia-a-dia não apenas dele, mas do resto da família também: com o barulho característico que vem do armário na parede, com o cheiro de plástico pela casa, com os objetos feitos e com a renda gerada pela venda das coisas as quais ela - e meu pai - faz.

